Assunto: Artigo: Aspectos Neurobiológicos e Funcionais da Dislexia
De: "cecilia@cgceducacao.com.br"
Data: Qui, Agosto 26, 2010 3:57 pm
Para: José Francisco Vasconcelos
Asectos Neurobiológicos e Funcionais da Dislexia
Pensando em alguns colegas, profissionais de saúde, que proclamam a não existência da dislexia, encontrei uma frase, atribuída a Albert Einstein, o mais famoso disléxico de toda a história, que diz o seguinte: VOCÊ NÃO PODE PROVAR UMA DEFINIÇÃO. O QUE VOCÊ PODE FAZER É MOSTRAR QUE ELA FAZ SENTIDO.
Dispus-me, então, a pesquisar trabalhos científicos, antigos e atuais, que relatam diferenças neurobiológicas e funcionais relacionadas à dislexia e passo a descrever os achados, citando seus autores na intenção de deixar o assunto um pouco mais explícito.
Para iniciar buscamos Markan, Saviour e Ramachandra que relatam estar a dislexia relacionada a alterações encontradas nos cromossomos 1, 2, 3, 6, 7, 17 e 18. Alterações estas ocorridas após mutações. Estas mutações poderiam explicar a hereditariedade do distúrbio. Portanto, a dislexia está associada a mecanismos que dependem de vários genes e dependem ainda da complexa interação desses genes com o meio ambiente para a expressão de seus efeitos.
Foram encontrados, em estudos post mortem com disléxicos, neurônios do tecido cerebral do tálamo 20% menores quando comparados com indivíduos sem dificuldades relacionadas à leitura e escrita. Galaburda, pesquisador e estudioso deste assunto, atribui como conseqüência a estas alterações no tamanho do tecido, uma lentificação no processamento de informações tanto do sistema visual quanto do auditivo.
Além desta diferença, foram encontradas ainda, segundo Stein, ectopias em cérebros de disléxicos, ou seja, células que durante o desenvolvimento pré-natal ficaram deslocadas de sua posição final esperada. Estas ectopias foram localizadas nas regiões do lobo temporal e frontal do hemisfério esquerdo, áreas consideradas essenciais para a linguagem.
As alterações relatadas por Stein como ectopias, microgírias e displasias ocasionariam maturação cortical anômala o que explicaria algumas dificuldades dos disléxicos como disfunções relacionadas ao planejamento e à memória auditiva.
É também relatado por Saviour e Ramachandra pobre domínio tátil, assim como os problemas relacionados ao processamento visual e auditivo, corroborando com os achados de Galaburda.
Além disto, entre indivíduos sem dificuldade de aprendizagem é observada a assimetria entre os hemisférios cerebrais, já entre disléxicos vários estudos apontam para a simetria hemisférica.
Ao nascermos temos ambos os hemisférios cerebrais (direito e esquerdo) do mesmo tamanho; com o desenvolvimento e a aprendizagem da fala e da linguagem em geral é esperado que o hemisfério esquerdo tenha um ganho em termos de tamanho em relação ao hemisfério direito. Isto não é observado entre disléxicos, onde se observa um desenvolvimento simétrico entre os dois hemisférios, levando a prejuízo na área de linguagem (basicamente processada pelo hemisfério esquerdo) com privilégio para outras habilidades consideradas de responsabilidade do hemisfério direito como visão espacial, imaginação, habilidades musicais e artísticas de modo geral, etc.
Bakker e outros autores atribuem estas alterações neuronais à ação do hormônio testosterona. O excesso deste hormônio ou a sensibilidade a ele levariam a alterações durante o desenvolvimento do cérebro e alterações relacionadas ao sistema imunológico. E é notadamente conhecida a existência de quadros alérgicos entre disléxicos.
Rocha utiliza a questão relacionada à testosterona para explicar a existência predominantemente de dislexia entre os meninos, três para cada menina. Corroborando com esta afirmativa existem ainda pesquisas que relatam diferenças no processamento da linguagem entre meninos e meninas.
Não podemos nos esquecer ainda das diferenças funcionais observáveis em exames de neuroimagem. Relatos detalhados de Eden e colaboradores informam resultados pobres em tarefas que exijam processamento visual rápido nos disléxicos.Stein descreve ainda convergência, fixação e movimentos sacádicos (que são muito importantes para a leitura) instáveis ou ineficientes entre disléxicos. Para melhor entendermos, convergência é a função ocular que permite o cálculo da distância; movimento sacádico é aquele que realizamos com os olhos para percorrer a linha durante a leitura ou para analisar o ambiente e quando fazemos uma pausa neste movimento chamamos de fixação.
Facoetti e Turatto estudaram e descreveram dificuldade em suprimir informações distrativas, ou seja, restringir o foco de atenção, entre disléxicos durante o processo de decodificação, levando a ineficiência na leitura.O disléxico apresenta também diferenças na atividade cerebral durante o processo de leitura quando comparado a leitores sem dificuldade. O disléxico tende a apresentar maior ativação no hemisfério direito ao contrário do leitor eficiente que apresenta maior ativação no hemisfério esquerdo.
Ramus nos fala ainda das dificuldades dos disléxicos em captar amplitude e freqüência dos sons das letras. O autor cita que disléxicos obtiveram resultados em testes que propunham esta medida, piores até que indivíduos com algum déficit auditivo.Há ainda uma relação entre tempo de resposta mais lento e déficit no sistema visual magnocelular entre disléxicos. Esta relação é descrita por vários pesquisadores, onde modestamente me incluo. (Meu trabalho de dissertação de mestrado versava sobre este assunto).
Diante de tantas evidências observadas em experimentos científicos sérios e podendo presenciar dificuldades na vida acadêmica, social e laboral entendo que não podemos negar ou ignorar a existência deste distúrbio e sim buscar alternativas que os auxiliem a alcançarem um desempenho melhor.
O tema do artigo sera debatido no 9o Simpósio Internacional de Dislexia que ocorrerá em São Paulo entre os dias 21 e 23 de outubro. Mais informações no site www.dislexia.org.br
· Maria Inez Ocanã De Luca é psicóloga; Mestre em Psicologia da Saúde e membro do CAE e CTAS - ABD (Centro de Avaliação de Triagem de Atendimento Social da Associação Brasileira de Dislexia)
Cecília Galvão
(+ 11 3722.1164/ 3722.3624/7654.2027
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